Complexidade da Vida Social

escrito por: Dr. Amaury Dabul

Na imensidão do universo e na inevitabilidade das rápidas mutações dos ambientes com a inexorável evolução do tempo, nada é mais complexo do que a Vida Social. Corroborando esta assertiva, há o fato inconteste que o ser humano, para viver, precisa conviver.
O isolamento do ermitão é uma aberração que não condiz com a natural tendência da continuação da espécie humana.
Apesar de inevitável e fundamental, a interação humana é altamente complexa, muitas vezes, cheia de fatos e fenômenos que a inteligência não consegue entender e tampouco explicar.
Usando a reflexão na busca da verdade com o método indutivo que nos lega a epistemologia, podemos, com pouca possibilidade de erro, afirmar que a interação humana é alicerçada por determinados fundamentos.
O conhecimento e a análise desses fundamentos nos mostram a realidade dos fatos. É destituída de qualquer dúvida a constatação de que todos os indivíduos são diferentes entre si. Sob todos os aspectos, cada um tem suas características próprias, não só físicas, mas, principalmente, também no desenvolvimento de seus intelectos.
Geneticamente, todos os seres humanos, como os demais seres do reino animal, trazem, desde a sua concepção, uma peculiar programação que orienta, por toda a vida, suas atitudes e comportamentos, voltados para a autopreservação e preservação da espécie. A essa característica dá-se o nome de instinto. Baseando-se nos ensinamentos do Doutor Luiz José Machado de Andrade, renomado cientista brasileiro na área da neurolinguística, o instinto do ser humano, diferente dos demais animais, coexiste com o intelecto, que se desenvolve graças à sua capacidade de acumular conhecimento pela cognição humana nos seus aspectos sócio-culturais; capacidade esta permitida por suas privativas faculdades que são a razão e a intuição, que nenhum outro animal possui.
Isto permite ao ser humano – na sua individualidade característica e próprio desenvolvimento de seu intelecto, manifestado por sua inteligência – apresentar vontade própria privativa e peculiar à sua personalidade, naturalmente distinta dos seus semelhantes.
O normal surgimento de incompatibilidades de vontades individuais, provenientes de distintos interesses e aspirações, enseja a gênese dos conflitos na vida social do ser humano.
Esses conflitos tendem a se agravar no cotidiano dos ambientes comuns, como o familiar e o do local de trabalho. Esses ambientes, pela dinâmica da vida em comum e as interdependências que naturalmente há entre os indivíduos, proporcionam o surgimento de divergências de interesses e, em consequência, exacerbação nas escaladas dos conflitos interpessoais.
Com este intróito, vem naturalmente a pergunta: “Como e quando os seres humanos podem viver em harmonia, mesmo em espaços ou ambientes contíguos?”
Inicialmente, foi explicitado que há uma contínua imposição da necessidade de convivência em virtude da assertiva de que o ser humano, para viver, precisa conviver. Devido a isto, chega-se à conclusão que as naturais divergências, provenientes de distintos interesses e vontades conflitantes, são atenuadas ou mesmo neutralizadas pelos fundamentos da convivência humana que são: Respeito, Consideração e Comunhão de Valores. Estes fundamentos agem e interagem tendo como base o Princípio da Reciprocidade.
Pode-se entender o fundamento Respeito como a atenção e acatamento à personalidade, aos direitos, ao sentimento, às idiossincrasias, às glórias e vicissitudes passadas, às crenças, ao histórico e aos objetivos pessoais de seu semelhante.
Já o fundamento Consideração – entendido como o respeito às opiniões, às reações, às ponderações, às normais limitações físicas, mentais ou funcionais – deve mutuamente existir entre os componentes do grupo social em destaque.
No que concerne ao terceiro fundamento, a Comunhão de Valores, sua manifestação é sentida quando, entre os indivíduos considerados, há compatibilidade de opiniões sobre a validade e o acatamento do conjunto de normas, princípios ou padrões sociais que são aceitos e mantidos pelo grupo onde vivem em comum. Esses valores podem ser morais, éticos, legais ou outros que aflorem do convívio desse grupo no seu desenvolvimento consuetudinário. Émile Durkheim (1858-1917), considerado um dos pais da sociologia moderna, deu ênfase à importância da Coesão Social. Com seus ensinamentos, aprende-se que o homem só se realiza quando consegue integrar-se ao grupo social a que venha a pertencer e desse seu legado cultural infere-se, também, que essa integração é predominantemente feita no campo axiológico, com a necessária Comunhão de Valores dos integrantes do grupo. Quando não há a Comunhão de Valores a Convivência Humana é naturalmente impossível. A vida prática nos lega, com uma infinidade de exemplos, o desmoronamento de estruturas familiares e rompimento de muitas amizades antigas devido ao desvanecimento da Comunhão de Valores entre as pessoas que mutuamente se desagregam.
É possivel nesta parte deste Ensaio afirmar que a Convivência Humana é alicerçada pelos seus fundamentos Respeito, Consideração e Comunhão de Valores que, por sua vez, são baseados no Princípio da Reciprocidade obrigatoriamente observado pelas partes que convivem em um determinado ambiente social.

Pode-se também afirmar que, não sendo praticado o Princípio da Reciprocidade ou faltando a observância de qualquer um dos três fundamentos, a Convivência Humana é inexequível e a desagregação do Grupo Social tende a ser inevitável.
Entretanto, mesmo com a Convivência Humana inexequível é possível o Relacionamento Humano. Isto ocorre quando pessoas que não comungam os mesmos valores interagem no atendimento de interesses comuns. Neste caso, não ocorrendo a Comunhão de Valores, encontra-se como condição sine qua non a existência concomitante dos fundamentos Respeito e Consideração exequibilizando o Relacionamento Humano.
É perfeitamente possível haver um intenso e profícuo Relacionamento Humano entre um marginal de última categoria e um abnegado religioso, apesar de não haver qualquer Comunhão de Valores entre os mesmos. Mas, mesmo nesse caso extremo, não pode faltar os outros fundamentos, Respeito e Consideração, e isto alicerçado pelo Princípio da Reciprocidade. Faltando o Respeito ou a Consideração, por somente uma das partes envolvidas, não haverá ambiente para qualquer Convivência Humana ou Relacionamento Humano.

Em suma, podemos então afirmar que o Relacionamento Humano pode normalmente ocorrer em um Grupo Social quando, observando o Princípio da Reciprocidade, são praticados os seus fundamentos, que são o Respeito e a Consideração. Mas, para passarmos do Relacionamento Humano à Convivência Humana é impositivo o fundamento Comunhão de Valores.


 

Foto_ Amaury DabulAmaury Dabul é Doutor em Ciências Navais, Administrador
Membro-Fundador do Grupo de Estudos para o Desenvolvimento da
Administração – GEDA,Membro-Fundador do Centro Brasileiro de
Estudos Estratégicos – CEBRES,Acadêmico Titular da Cátedra nº 4 da
Academia Brasileira de Ciência da Administração – ABCA,Membro da
Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra – ADESG,
Coordenador-Geral do Sistema de Planejamento da Ação Governamental de Município – SISPAGOM®
Presidente da ONG/OSCIP Alavancando o Progresso – ALPROGRESSO®.

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